Eu e a arte não sabemos ao certo quem somos mas temos a certeza de sermos um do outro e isto é tudo de que precisamos para a vida.Alberto Carneiro, ARTE VIDA / VIDA ARTE (Fundação Serralves)
revelação sexta
a toda a matéria
que não
é una
o vento
mais do que impelir
divide.
Claude Debussy - La Fille Aux Cheveaux de Lin
será frio o amor
I
o silêncio
vem devagar. se mistério existe no amor será esse dom inverso
de tapar o sol com um manto de nuvens gris
dizer que nada se cobre ainda noite
quando o silêncio do tempo frio
se ocupa a esculpir estátuas no interior das casas
a decorar os forros interiores de todas as camisas com espinhos
no interior do interior
para que ninguém possa espreitar a vergonha
nua
ofício de ver que tem como arte tapar os olhos com as mãos
para que apenas se escute o silêncio que o tempo gasta devagar
II
ah a espera para que o silêncio chegue
e se gaste a certeza
de que todo o amor é um grito profundamente quente
a espera para que escute um silêncio ímpio
indigno porque impede toda e qualquer ressureição da esperança
ah a espera
pelo silêncio
que vem devagar
de corpo nevado
e coração tapado com as mãos
trazendo a notícia
de que todo o amor é um silêncio profundamente frio
III
o silêncio vem
devagar
o frio do amor
vem de dentro
devagar
como intricada arte que cobre o coração com as mãos
e confronta o corpo com a terrível realidade glaciar
escura e impoluta pétrea e cadavérica
contemplando a sobrevivência em terrível condição
talvez fosse o coração tapado com as mãos
capaz de emanar outro calor
se no amor outro mistério existisse

Misha Mishenko - Saturnus
da infértil seara
tenho-me detido nos atalhos tenho-me escondido no telhado
tenho-me esquecido de mim no topo de um limoeiro
não há mais a doçura acessível de uma vida inicial
não há mais fertilidade no movimento das estações
sabia que era necessário desenhar o traço do caminho
planear a moagem do tempo de acordo com uma ordem
que fosse sábia e o mais social possível
debulhar o trigo assim é
separar de forma sábia o selvagem do domesticado
e eu tenho-me escondido dessa que para mim tenho como fraca distinção
tenho-me esquecido de mim tantas vezes que há dias em que atravesso
a cidade para fugir
atravesso o quarto num só passo
e a cidade não foge
a cidade é uma eira
de onde se avista e se prepara o tempo da colheita
é dela que fujo e me esqueço todos os dias
para o topo de um limoneiro mais alto que a espiga
onde me detenho a observar que sementes se tornarão pão
a luta severa entre as espécies as valas que se cavam para enterrar as searas
fujo e termino todos os dias na companhia do amarelo luzido do limão
pensando-me esquecido da colheita
na distância de todos os inférteis anos
que me foram afastando do chão.

Danny Norbury - 1.iii.10
é no clamor da palavra
exercitando uma proto-poesia
orfã ainda de uma insistente estética fria
que percebo como o caos nada revela
a novos e velhos poetas
a criação ensinada foi a geométrica
e por isso ciente da posição de todos os corpos
e de todas as palavras
precisamos pois da sintaxe para a vida
para o poema
talvez de uma queda organizada.

Darwin Raymond - Koa
meço cada verso como meço cada vão de escada
meço cada grito como meço cada choro triste
tudo é mensurável a uma certa percepção humana
por exemplo os vãos de escada
ou a distância entre dois telhados
menos o teu nome
dessa medida não se extrai a distância
talvez por se expandir demasiado rápida
talvez por não se prestar a uma geometria do espaço
que um dia um filósofo burlão terá plantado na percepção
certo é que telhados se fizeram
que vãos de escada se ergueram e se pisaram para
que deus ficasse mais perto
o teu nome não
não serve sequer aproximação como termo para
descrever a minha chegada a ti
isto é: como através do movimento construí em ti o vagar
nada medi
nada intuí para que fácil fosse fazer a conta
tudo se pressentiu antes de pressentir
sem números de distâncias sem o movimento obtuso das
estradas e das multidões
triste rotas julgadas como fortuitas
como o comboio a partir e a chegar à estação
ou o caminho escolhido e repetido pelos cardumes no mar
enfim
quase tudo se mede e repousa
menos o teu nome
o teu nome é o tempo
e o lugar.

Jon Hopkins - Small Memory
leitores, viajantes cibernéticos perdidos, apreciadores de poesia e de vinho, de charutos, da paisagem alentejana, e de outros prazeres mundanos
informo-vos que as fnacs, bertrands e outras livrarias deste pequeno país devem já contar com uma pequena ilha-literária intitulada insula. alguns poemas andam por aqui, outros nunca viram a luz (será mais a escuridão?) da internet e aparecem assim em forma de livro editado pela lápis de memórias, editora que ainda acredita nesta tríade pouco saudável que é escrever, editar e ler livros. não vos vou pedir que o comprem para me ajudarem a sobreviver neste difícil meio literário, tão-pouco para me animar o ego que insistentemente procuro minimizar. gostaria apenas de vos sugerir que o comprem se gostarem do que por aqui se escreve. apenas isso. como se compra um bom vinho alentejano quando dele se gosta. como se compra um bom álbum de música. agora o insula já anda pelas mesmas prateleiras.
trago formas de luz
fotografias de todos os crimes no peito
livros, trago livros
cortázar, calvino, tavares
samarago
trago um saramago no peito.
pela larga noite
insisto na arte de roubar a ladrões
crime em que a pena máxima
é sobreviver humanizado.
no peito trago histórias
poemas melancólicos
sigo avisando o destino
que amanhã, eternamente amanhã
partirei na palavra mais bela.

Dead Texan - Aegina Airlines
como a livraria se entende
e distorce os olhos de quem por ela passa
como quem entra e observa a capa de um
livro
como se observa uma pedra
que como arma de arremesso agita as
massas
como que a anunciar uma lenta revolução.
como é estranho observar quem
observa um livro
como é estranho existirem
tão poucas revoluções.
