monóptero

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June 2013

3 posts

a revolução ao mar

há quem se constitua chamando a si as brechas
as fendas no miolo das mãos 
que tudo largam e libertam 
para que se diluindo sós se encontrem em tudo
há quem seja o miolo do mundo
que compreendo o interior do fruto
se refugia no canto da pele 
há quem se marque profundo  
como faca em árvore antiga
escrevendo: aqui me perdi 
e há quem roube barcos e avance
em direcção ao mar
sítio sem fundo nem princípio
oco do mundo
e linhas de costa para sonhar. 

Jun 18, 20137 notes
Sarabandes - No. 1 Erik Satie

Erik Satie - Sarabandes - No. 1

Jun 18, 20131 note
#erik satie #sarabandes

amnio

são marítimos os poemas que ardem na terra
e os pequenos vocábulos - mãe, raiz, amor
que se alojam nos pulmões
o pó da terra é cinza que só se lava no mar
e através do silêncio - contemos os segundos 
respiramos na água do primeiro ao último dia 
escrever
é vir à tona
ascendendo do escuro 
ao topo da raiz
mãe amor
tudo o que precisa
o corpo para a libertação 
do amniótico líquido
transformado
feito escuro, pó e lodo 
mas mãe, raiz, amor
tudo o que nos salva
tudo o que impele à ascensão.

Jun 5, 201316 notes

May 2013

4 posts

Wires of Glass (Danny Norbury cover) Aaron Martin

Aaron Martin - Wires of Glass (Danny Norbury cover)

May 30, 20133 notes
#aaron martin #danny norbury #modern classical

isto não é nada
a noite não é nada se me faltar a luz
a fronteira não é nada se do outro lado
não existir gente
o pecado não é nada
se não existirem falhas nos códigos gerais
o meu corpo não é nada
se nenhuma marca o trespassar
a vida não é nada
se em mim tudo ainda se prepara.

May 30, 201320 notes
DEVIR - hoje (dia 15) no Bartô (Chapitô), às 22h. → devir.bandcamp.com

devir é o projecto de dois amigos com tendência para a genialidade. sons inspirados em poesia | poesia inspirada em sons.

Porque 

um dia o mundo não mais 
será um enfermo genérico 

um dia há-de vir o dia 
da dissolução e do reinício 

porque há devir 

May 15, 20135 notes
I Thought It Was Us Saltland

Saltland - I Thought it Was Us

May 11, 201319 notes
#Saltland #Esmerine #modern classical

April 2013

20 posts

                                                    Recomeçamos. Não nos rendemos.

                                                     Lars Gustavsson, A Morte de Um Apicultor


o amanhã

o que trará o amanhã, depois do fim? 
a vitória tardia? 
a decepção de mais um dia? 
pedimos ao deitar que o amanhã nos vença a sede
a imensa secura contemporânea
e o amanhã traz-nos mais um copo 
que serve apenas para se esperar um pouco mais
neste acumular de dias 
e trazer a espera 
da compreensão de todas as teorias

trará apenas o testemunho que tudo avança 
por isso deixou o homem de ser natural 
trocou o ir e voltar de todos os lugares simples
pela espera em lugares que não se movem
pelo que se espera do amanhã em anos bons
mercadores itinerantes amores itinerantes
mulheres que se revelam como símbolos 
casas onde se rezam como em santuários
e orlas mal percorridas 
e viagens mal guiadas nem sempre pela luz do farol

talvez seja apenas um pouco cedo para se esperar
estás caído sobre a terra entre flores e outras antiguidades
e ainda não percebeste que
o amanhã não te trará nada
tu sim
trarás o amanhã. 
 

Apr 28, 201334 notes

abro os olhos no final do último verso 
vejo-te no poema 
tudo o resto se encontra à margem
assim deveríamos destapar cada livro cada amor
de olhos abertos
como se fosse o último.

Apr 27, 201336 notes
Better Greg Haines

Greg Haines - Better

Apr 27, 201312 notes
#modern classical #piano #Greg Haines
“Deves é mudar de alma, não de clima. […] Andares de um lado para o outro não te ajuda em nada, porque andas sempre na tua própria companhia.” — Séneca
Apr 25, 201320 notes

contra-revolução

é como partir 
e não fugir 

é como uma revolução que bate à porta
e ninguém abre

é como acordar
e ainda dormir.

Apr 25, 201357 notes
Orla Wren - Five Acre Ladder ( Reprise )

Orla Wren - Five Acre Ladder (Reprise) 

Apr 23, 20137 notes
#orla wren

foste a caligrafia mais bela
inscrita no corpo mais àspero
a palavra mais leve sobre as costas
mais pesadas
e ainda que o tempo tenha sido tudo 
o que nunca te soube dizer 
fica certa que nenhuma letra se apagará 
no vil acaso do palimpsesto. 
           criaste em mim
           a tua imperecível pele. 

Apr 22, 201362 notes
Among The Sef (Righteous II) Colin Stetson

Colin Stetson - Among The Sef (Righteous II)

Apr 21, 201310 notes
#colin stetson

texto que escrevi para o une autre mer, álbum do João Alegria Pécurto que podem escutar aqui: http://joaoalegriapecurto.bandcamp.com/album/une-autre-mer

une autre mer, para um alumiar da alma 

une autre mer é um mandato de captura do corpo para o alumiar da alma. levados que somos do escafiado porto quotidiano, anestesiados ao primeiro andamento, navegamos sobre as águas a caminho de uma ilha onde nos esperam mais quinze isolamentos em espaço de ninguém. ao segundo isolamento a dúvida, que destroços nos acolhem, que jornada? a resposta chega com o corpo já em transe, no exacto meio de um terceiro isolamento. diz-nos a inquietação interior que aqui estamos para um princípio de fuga sem sair do lugar. ao quarto já pouco se recorda a partida, já o corpo descansa sob o perfeito silêncio tímbrico. sucede-se o quinto e o sexto, e a mente já esclarecida, adquire a forma do som que a embala. assim decorrem os aperfeiçoamentos da alma, roubando do que nos toca a força necessária para o movimento interior. ao sétimo desce essa nova forma ao silêncio original. não há dúvida que repousa, que tange o corpo silencioso. assim para o oitavo e nono isolamentos onde já é raso o escuro, onde o desconforto é pouco habitual. ao décimo isolamento roda o silêncio, esparge-se a calma, dissipa-se o cansaço. a partir daqui percebemos definitivamente que esta captura nos vence. ao décimo primeiro e décimo segundo a ligeira perda de orientação, comum em périplos de rumo incógnito. mas rápido se ergue o corpo em uníssono com a alma e ao décimo terceiro a certeza é absoluta. nada nos impede mais de olhar o que não fomos. assim ocorre a revelação da forma que estes isolamentos sugerem. encontramos o calmo prelúdio da descoberta ao décimo quarto, para que ao décimo quinto se revele o labirinto a toda a luz. não há surpresa nesta ausência de caminhos concretos. este é um sopro feito para ecoar no emaranhado do existir. apesar da áspera forma, da falta de linearidade e ângulos marcados, esta é uma ilha-labirinto para a liberdade, para um alumiar da alma. sabemos que não existem rotas para o regresso, mas pouco importa desde que exista mar 
um outro mar.

Apr 20, 20137 notes
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Apr 20, 20133 notes
#João Alegria Pécurto

ainda é tarde para arder

enquanto despia a inocência
flores ardiam para que se libertasse a beleza 
assim aniquilando
a melodia 
a luz entrelaçada
a ligeireza do dia 
para que tudo se sentisse vivo
e em tudo se acreditasse durante
o tempo certo para fazer a ilusão durar
foi o próprio deus 
a acreditar na resurreição possível
quando se queimaram
as flores
as redes
os peixes
na fogueira da esperança 
e não fosse a fragilidade da crença
fácil seria recuperar a inocência
mas aqui estamos sós 
desprovidos
da leveza
alimentados pelo
visível
pela forma
pela decepção
pelo pecado de não amar o próximo
pelo fim da palavra 
pelo fim da noite que tarda em arder.

Apr 18, 201321 notes
Play
Apr 16, 20133 notes
#russell m. harmon

esta falta de nudez

afinal não estou certo de nada
se não de que apenas tento 
em função da dispersão atómica
criar a vontade para designar o dia
tratar o corpo dividido 
em função da métrica semanal ou 
em função do incomensurável enredo
sentimental

observo
cinza na ponta dos dedos
escuto 
a cidade confusa as buzinas emitidas
o grito do louco
o silêncio do louco
e designo o dia como mais um milagre perdido
numa contagem das tragédias anuais

a luz que hoje cai sobre as enseadas
em função do bom tempo
na razão de uma prosperidade climática
que em pouco ou nada
altera a queda sentimental
o vento que sopra de dentro
manso 
para que manso sopre também o dia

oiço o homem raso a nomear o dia como perdido
observo a mulher a soçobrar de criança ao colo
o cego a levitar sobre a desformatada cidade
toco o sétimo dia em movimento e sinto a vertigem
de cair um pouco mais
neste poço onde me vi reflectido 
sempre que quis ser outro
e ser o mesmo um pouco mais

e afinal não estou certo de nada
se não de que apenas tento 
despir-me
para me vestir de novo
e alcançar o dia com a mitológica 
força da manhã
com a mansidão cantada pelos profetas
e a vestimenta branca de homem de bem

mas acontece que nada ocorre
nem um pouco mais de luz
nem o nome novo que oferece o dia
afinal talvez tudo se trate apenas de uma questão 
epidérmica
de falta de nudez
de uma carne exposta rasgada de dentro para fora 
onde possa chegar a luz.

Apr 16, 201316 notes
“Eu e a arte não sabemos ao certo quem somos mas temos a certeza de sermos um do outro e isto é tudo de que precisamos para a vida.” —Alberto Carneiro, ARTE VIDA / VIDA ARTE (Fundação Serralves) 
Apr 15, 201324 notes

revelação sexta 

a toda a matéria
que não 
é una
o vento
mais do que impelir
divide. 

Apr 12, 201333 notes
Debussy: La fille aux cheveux de lin

Claude Debussy - La Fille Aux Cheveaux de Lin

Apr 12, 201319 notes
#Debussy #classical #piano

será frio o amor

I

o silêncio
vem devagar. se mistério existe no amor será esse dom inverso
de tapar o sol com um manto de nuvens gris
dizer que nada se cobre ainda noite
quando o silêncio do tempo frio 
se ocupa a esculpir estátuas no interior das casas
a decorar os forros interiores de todas as camisas com espinhos
no interior do interior
para que ninguém possa espreitar a vergonha
nua 
ofício de ver que tem como arte tapar os olhos com as mãos
para que apenas se escute o silêncio que o tempo gasta devagar
 
II

ah a espera para que o silêncio chegue
e se gaste a certeza 
de que todo o amor é um grito profundamente quente
a espera para que escute um silêncio ímpio
indigno porque impede toda e qualquer ressureição da esperança
ah a espera
pelo silêncio 
que vem devagar
de corpo nevado 
e coração tapado com as mãos
trazendo a notícia 
de que todo o amor é um silêncio profundamente frio

III

o silêncio vem 
devagar
o frio do amor
vem de dentro
devagar
como intricada arte que cobre o coração com as mãos
e confronta o corpo com a terrível realidade glaciar 
escura e impoluta pétrea e cadavérica 
contemplando a sobrevivência em terrível condição 
talvez fosse o coração tapado com as mãos
capaz de emanar outro calor 
se no amor outro mistério existisse 

Apr 10, 201314 notes
Saturnus Misha Mishenko

Misha Mishenko - Saturnus

Apr 10, 201312 notes

da infértil seara

tenho-me detido nos atalhos tenho-me escondido no telhado 
tenho-me esquecido de mim no topo de um limoeiro  
não há mais a doçura acessível de uma vida inicial
não há mais fertilidade no movimento das estações 
sabia que era necessário desenhar o traço do caminho
planear a moagem do tempo de acordo com uma ordem
que fosse sábia e o mais social possível 
debulhar o trigo assim é 
separar de forma sábia o selvagem do domesticado
e eu tenho-me escondido dessa que para mim tenho como fraca distinção
tenho-me esquecido de mim tantas vezes que há dias em que atravesso
a cidade para fugir
atravesso o quarto num só passo
e a cidade não foge
a cidade é uma eira 
de onde se avista e se prepara o tempo da colheita
é dela que fujo e me esqueço todos os dias
para o topo de um limoneiro mais alto que a espiga
onde me detenho a observar que sementes se tornarão pão 
a luta severa entre as espécies as valas que se cavam para enterrar as searas 
fujo e termino todos os dias na companhia do amarelo luzido do limão
pensando-me esquecido da colheita
na distância de todos os inférteis anos 
que me foram afastando do chão. 

Apr 4, 201310 notes
1.iii.10 Danny Norbury

Danny Norbury - 1.iii.10

Apr 4, 20133 notes
#danny norbury

March 2013

8 posts

é no clamor da palavra
exercitando uma proto-poesia
orfã ainda de uma insistente estética fria
que percebo como o caos nada revela 
a novos e velhos poetas 
a criação ensinada foi a geométrica
e por isso ciente da posição de todos os corpos
e de todas as palavras
precisamos pois da sintaxe para a vida
para o poema 
talvez de uma queda organizada.

Mar 28, 201316 notes
Koa Darwin Raymond

Darwin Raymond - Koa

Mar 28, 20139 notes

meço cada verso como meço cada vão de escada
meço cada grito como meço cada choro triste
tudo é mensurável a uma certa percepção humana
por exemplo os vãos de escada
ou a distância entre dois telhados  
menos o teu nome 
dessa medida não se extrai a distância 
talvez por se expandir demasiado rápida 
talvez por não se prestar a uma geometria do espaço
que um dia um filósofo burlão terá plantado na percepção
certo é que telhados se fizeram
que vãos de escada se ergueram e se pisaram para
que deus ficasse mais perto
o teu nome não
não serve sequer aproximação como termo para 
descrever a minha chegada a ti 
isto é: como através do movimento construí em ti o vagar 
nada medi
nada intuí para que fácil fosse fazer a conta
tudo se pressentiu antes de pressentir 
sem números de distâncias sem o movimento obtuso das 
estradas e das multidões 
triste rotas julgadas como fortuitas
como o comboio a partir e a chegar à estação
ou o caminho escolhido e repetido pelos cardumes no mar
enfim
quase tudo se mede e repousa
menos o teu nome
o teu nome é o tempo
e o lugar. 

Mar 15, 201327 notes
Small Memory Jon Hopkins

Jon Hopkins - Small Memory

Mar 15, 201312 notes
#jon hopkins #piano #modern classical
Mar 13, 201330 notes

trago formas de luz
fotografias de todos os crimes no peito
livros, trago livros
cortázar, calvino, tavares
samarago
trago um saramago no peito.
pela larga noite 
insisto na arte de roubar a ladrões
crime em que a pena máxima
é sobreviver humanizado.  
no peito trago histórias
poemas melancólicos
sigo avisando o destino
que amanhã, eternamente amanhã
partirei na palavra mais bela.

Mar 6, 201319 notes
Aegina Airlines The Dead Texan

Dead Texan - Aegina Airlines

Mar 6, 20138 notes
#dead texan #modern classical #ambient #piano

como a livraria se entende
e distorce os olhos de quem por ela passa
como quem entra e observa a capa de um 
livro
como se observa uma pedra
que como arma de arremesso agita as 
massas
como que a anunciar uma lenta revolução.
como é estranho observar quem 
observa um livro
como é estranho existirem 
tão poucas revoluções.

Mar 1, 201321 notes

February 2013

10 posts

Canzone popolare Ludovico Einaudi

Ludovico Einaudi - Canzone popolare

Feb 26, 201312 notes
#ludovico einaudi #piano #modern classical

homologias nocturnas

chamemos ao silêncio um nome níveo
quietude disfarçada sobre o brilho de um mundo fundo
chamemos à vida um esboço
um traço marcado com desígnio mas sem alcance final 
chamemos ao cansaço 
persistência.
ainda que tarde haveremos de seguir. 

Feb 25, 201324 notes
Feb 19, 201322 notes
#Mal Dito #Poesia #Coimbra

inquirição ao tempo firme

é penoso pensar
que hoje são as mãos que seguram os olhos
algo como o tempo a segurar a idade
é penoso pensar
o peso que oferecemos à lembrança
como se te lembrar oh tempo de ouro
fosse carregar-te comigo
como tempo último tempo final 
é penoso pensar
que hoje tudo se sustém na matéria firme  
o bulício da cidade
o rumor de mais uma queda
fiel a uma grave ordenação do mundo
é penosa a dúvida
a inquirição no banco de jardim
escutando as lamúrias do cigarro
perguntando
se tudo isto é tempo
se é tempo
a repetição da memória
ou a memória da repetição. 

Feb 18, 201315 notes
http://joaoalegriapecurto.bandcamp.com/album/une-autre-mer → joaoalegriapecurto.bandcamp.com

o João Alegria Pécurto tem um novo álbum intitulado une autre mer, para o qual tive o enorme prazer de escrever uma espécie de texto introdutório e dois pequenos poemas. aconselho vivamente uma visita ao bandcamp do João. não duvidem que vale a pena o mergulho. 

Feb 14, 20134 notes
IV joão alegria pécurto

João Alegria Pécurto - IV (une autre mer)

 

16 isolamentos para um render do corpo 
todo o espaço é um lugar ermo 
neste mar 
que se tirem então todas as medidas 
que escutar seja o meio de ver 
o profundo como latente 
o partir como o chegar. 

Feb 14, 20138 notes

mar ao longe

somos dois corpos que se distam no tempo
que contam os dias 
como antes contavam o silêncio antes da nudez

somos barcos frios perdidos no mar 

fomos a glória provisória dos audazes
que navegam ainda antes de avistar

fugimos juntos tarde de mais
fomos a contagem incompleta antes de zarpar 

fomos 
talvez somos

o princípio e o fim de todo o mar.

Feb 9, 201356 notes
Bubbles Which On The Water Swim Colleen

Colleen - Bubbles Which On The Water Swim 

Feb 7, 20133 notes
#colleen

este mundo cão não dorme, aqui vive-se
em profunda melancolia, esse lado simpático da dor
nunca se sonhou tanto e no entanto nunca se 
esventraram tantas almas
nunca se apagaram tantas pontas de cigarro nos olhos
na pele 
nunca se morreu tão devagar
deifica-se o desejo em casa depois de o ver na rua
e à hora do jantar em frente ao televisor
frusta-se o peito de não respirar
todo o ar que se quis ter
são insípidos os cenários
porque tudo se acinzenta
e tudo se despurifica 
quando o sonho é visto com a cor das fábricas
entendido como o mesmo quotidiano das 
engrenagens 
que poema haverá então para escrever?
escreve-se este, outro, outro que nada diz
este repetido
em lisboa um poeta virou os olhos para dentro do 
corpo
vive de si 
e não morre
mas para quê?
para quê escrever
se já não há máquina que se humanize? 
apaguem 
apaguem a bondade dos dicionários
assumam que da ponta das canetas só podem sair
cheques carecas
ultimatos para a guerra 
poemas que destruam outros poemas
assumam de vez
que tudo isto é escuro
e que já não é grave
ter-se perdido toda a paixão 
não é grave guerra ter-se tornado substantivo certo
não é grave morrer sem milagres 
nenhum livro pode oferecer a redenção
nenhuma geografia nos salva
quantos povos atravessaram o indu kush 
a caminho da guerra
até alexandre
procurou o sonho guerreando
não havia como não o fazer 
assim é com todos os homens.

Feb 3, 201321 notes
13 Angels Standing Guard 'Round the Side of Your Bed

A Silver Mt. Zion - 13 Angels Standing Guard ‘Round the Side of Your Bed

Feb 3, 20138 notes
#A Silver Mt. Zion

January 2013

14 posts

três poemas para lisboa

II

lisboa começa cedo
mas longe
atravesso as avenidas 
e sou recordado da fragilidade
das medidas
encontro o saber que me diz
que em nenhuma cidade urgente 
se medem ao quilómetro as distâncias
a existir uma métrica talvez apenas a da memória
gravada nos olhos de quem não vê
talvez escandida nesse frio sofrido
de quem pede o escudo
ou de quem se esconde à noite nas arcadas
sustenho o passo e encontro a cidade
observo como lisboa começa cedo
mas longe 
de um cego ao outro se conta o dia. 

Jan 31, 20138 notes
Jan 30, 201330 notes

três poemas para lisboa 

I

para o tempo da chegada existirão eléctricos à espera
para a despedida nem um só nos virá buscar
lisboa nisso é como o amor
é fácil chegar
é difícil partir.
saberemos sempre dizer que caminhando se atinge a orla
ou que subindo ao elevador do carmo se verá a cidade
avistando assim o melhor lugar de partir 
mas que direcção tomar se a lisboa não termina? 
de onde partir se quando se desce todas as ruas se olham?

Jan 30, 201317 notes
Gathering Carousell

Carousell - Gathering 

Jan 30, 20137 notes
#modern classical #richard skelton
Jan 28, 201316 notes
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