texto que escrevi para o une autre mer, álbum do João Alegria Pécurto que podem escutar aqui: http://joaoalegriapecurto.bandcamp.com/album/une-autre-mer
une autre mer, para um alumiar da alma
une autre mer é um mandato de captura do corpo para o alumiar da alma. levados que somos do escafiado porto quotidiano, anestesiados ao primeiro andamento, navegamos sobre as águas a caminho de uma ilha onde nos esperam mais quinze isolamentos em espaço de ninguém. ao segundo isolamento a dúvida, que destroços nos acolhem, que jornada? a resposta chega com o corpo já em transe, no exacto meio de um terceiro isolamento. diz-nos a inquietação interior que aqui estamos para um princípio de fuga sem sair do lugar. ao quarto já pouco se recorda a partida, já o corpo descansa sob o perfeito silêncio tímbrico. sucede-se o quinto e o sexto, e a mente já esclarecida, adquire a forma do som que a embala. assim decorrem os aperfeiçoamentos da alma, roubando do que nos toca a força necessária para o movimento interior. ao sétimo desce essa nova forma ao silêncio original. não há dúvida que repousa, que tange o corpo silencioso. assim para o oitavo e nono isolamentos onde já é raso o escuro, onde o desconforto é pouco habitual. ao décimo isolamento roda o silêncio, esparge-se a calma, dissipa-se o cansaço. a partir daqui percebemos definitivamente que esta captura nos vence. ao décimo primeiro e décimo segundo a ligeira perda de orientação, comum em périplos de rumo incógnito. mas rápido se ergue o corpo em uníssono com a alma e ao décimo terceiro a certeza é absoluta. nada nos impede mais de olhar o que não fomos. assim ocorre a revelação da forma que estes isolamentos sugerem. encontramos o calmo prelúdio da descoberta ao décimo quarto, para que ao décimo quinto se revele o labirinto a toda a luz. não há surpresa nesta ausência de caminhos concretos. este é um sopro feito para ecoar no emaranhado do existir. apesar da áspera forma, da falta de linearidade e ângulos marcados, esta é uma ilha-labirinto para a liberdade, para um alumiar da alma. sabemos que não existem rotas para o regresso, mas pouco importa desde que exista mar
um outro mar.