monóptero

Black Elk - VI_II

insistir na dolência no agravo de não criar imagens vacilantes de dizer tudo ao contrário do que não se pensa pular a cerca para aumentar a distância binária entre um terreno e o outro: estava fora agora estou
dentro 
insistir na mercadoria como via que salva
insistir na passagem que corta a montanha 
insistir na extensão infinita que atravessa os campos quando tudo na memória se resume ao regresso e que não podendo regressar deve o viajante cumprir o seu destino em linha recta: estava longe agora estou
perto

teoria dos nós

perdi anos a tentar entender o amor como arte matemática
li e reli a carta que são paulo escreveu aos coríntios / ouvi escondido as palavras meigas de duas árvores no recato / escutei no peito de quem amei o som do acordar numa manhã de orvalho
tudo isto me fez tornar observador matemático
à procura de cada equivalente na peregrinação solitária dos amantes
às vezes observava a maravilhosa transformação de uma rua caiada de preto em luz
o rosto de uma mulher perdendo as faces negras
e apesar de tudo a incompreensão continuava vigilante
vezes seguidas encontrei corações adormecidos a destecer a teia que os prendia
via o clarão mais luminoso a ensaiar no escuro o desamor
lia as crónicas de todos esses apagamentos
os barcos amarrados no fundeadouro partindo à primeira tempestade / as romagens iniciando-se ainda sem a história de um primeiro milagre / amores partindo sem guardar saudade
tudo pouco matemático
demasiadamente descuidado

vou continuar a perder anos sem esperança
todas as noites me deitarei em convulsão 
phi raízes quadradas e números de ouro sobre os olhos
adormecerei sem a compreensão de são paulo perdido nos caminhos caudalosos para à cidade
nenhuma lógica se fará quotidiana
nesta conta serei número ausente do meu próprio monólogo 
serão poucos os dias em que me perderei a esquecer
como é difícil unir os caminhos da terra para os rios 
o porquê de nenhum acordar me ter ensinado ainda
o segredo matemático de como entrelaçar dois fios

Keaton Henson - Josella

I

são frágeis as naturezas mortas
um amor perdido faz casa na fina linha entre a esperança e o cansaço
matérias inertes e vivas apagam-se umas às outras
as luzes vão correndo cada vez mais afastadas

o que está dentro de mim susteve o passo 
estou já fora dos itinerários de muda
estou demasiado dentro da ausência 

decido desertar
vou seguir no rasto das últimas caravanas
um só sentido em cada junção

Richard Skelton - Grange

luz

se a lamparina que fere a vista
não mais iluminasse o quarto
e o poeta não escrevesse mais poemas de amor
que farias tu mulher de olhos tristes?
se te dissesse que o amor começava
no verbo
e que nunca na minha vida
fui capaz de falar ao espelho
com que olhos tristes me olharias? 
se te tivesse falado nos dias escuros
sobre o meu trabalho a partir da existência
terias tu observado a obra irrepetível? 
se não te tivesse visto mais
com os teus olhos tristes
não saberia qual o lugar da porta
e tu não terias medo do tempo
nem da visão à altura dos candeeiros. 
a ilusão foi acreditar que podias ver
para além do interminável
de olhos abertos em pleno dia 
à procura do verbo que falasse.
se te tivesse falado de amor
terias fechado os olhos
e percebido na exaustão
que tudo o que ilumina por fora fere a vista
serias uma mulher de olhos tristes
num quarto iluminado
e o meu peito seria uma parede de espelhos
uma luz sem corpo para velar. 
se te dissesse que o amor começava 
no verbo
partirias ciente de todos os mistérios
serias tu a grande matéria luminosa  
e eu o fogo no interior da cinza
a lâmpada de onde se extrai a noite

Hildur Guðnadóttir - Heyr Himnasmiður

há manhãs que acordam como noites nubladas
tristes superfícies enfraquecidas no princípio da raiz 

tiram-nos o pão da boca 
molham-nos os lábios de água

são manhãs que pulveziram os sentidos 
inauguram um outro afastamento 
a perda de mais um fruto
a lei da ceifa em cada corpo

manhãs de copo e corpo vazio 
a transitoriedade da sua neblina
é a nossa

Um poema é como o oásis que encontramos numa viagem pelo deserto. Bebemos do poço. Refrescados, continuamos a nossa viagem.
O Não-Mago, W. J. Maryson

Sufjan Stevens - The Owl and the Tanager

Counting alluvial plains 
The breathing inside of the range 
You touched me inside of my cage 
Beneath my shirt your hands embraced me
Come to me feathered and frayed 
For I am the ugliest prey, 
For I am the ugliest prey
The owl, the reckless reckless praise

quando o corpo perde a luz do seu lugar

fechei os olhos às vagas de luz
que molhavam o corpo 

agora amo a idade
mas sem luz dentro do sangue

procuro parar o pensamento
no lugar onde se erguerá a casa

mas nada se molda no vazio
pouco se constrói em liberdade

queria dizer que amo o silêncio
que respiro ao largo desta idade

mas a privação é interminável
morri cedo demais

as vagas de luz poderiam voltar 
se a minha claridade fosse inesgotável 

mas perdi-me do caminho para o mar
como uma embarcação se perde quando frágil

devia pedir aos astros uma voz
uma casa de costas para a derrocada

mas dentro de mim só uma voz
que fala como o oco de uma árvore abandonada

Arithmetica