monóptero

nihil sine dio

o projecto de sociedade antes de cristo ter sido homem
foi esperar com deus num quarto escuro que a morte nos chamasse
foi esperar com deus até que a doença nos comesse 
foi esperar com deus até que o próprio nos matasse

o projecto de sociedade de hoje 
é morrer num quarto escuro
é ser comido pela doença
é esperar que a loucura se torne a morte em presença

feliz o homem que tece poesias
onde a noite tece inseguras distâncias.
dos dias imensos e vistas soberbas
arma refúgios onde outros constroem pontes
e espera que o tempo se silencie
esperando o dia
o dia
da última junção possível.
de todos os erros o único 
é não tentar.
dessa espessura se faz a alma.

Danny Norbury - From the Lookout

o teu coração será para sempre uma cidade transumante
por dentro tudo inerte
lá fora tudo parte

korouva misteriosa korouva que me lembro tanto na cruzada como no repouso sob a cal tuas celestes nuvens brancas sobre o peito korouva do sino budista que me liberta na meditação em escuta korouva da alvorada korouva de wiskey sobre a mesa kourova longa como a noite na noite longa kourova desperta
na sorte de te escutar
respiro à tona dos naufrágios

também poderia ter traduzido o que a noite me dizia quando o arado sulcava a terra
a mentira, o desamor

também poderia ter escolhido aquilo que dentro do corpo se fingia certo
a impaciência, o desamor

também poderia ter limpo o meu rosto nos princípios de muda de cada estação
a primavera, o amor colocado sobre os teus olhos

o teu caminho no lugar de partir

também poderia adiar a morte
ou o breve rumor de que nada se escolhe
a minha própria queda, o nosso grande amor  

Aaron Martin - Tuulensuoja (at breath’s end)

luz de agosto

espero deste verão 
alguma luz capaz
de trepanar este escuro caixão

Black Elk - VI_II

insistir na dolência no agravo de não criar imagens vacilantes de dizer tudo ao contrário do que não se pensa pular a cerca para aumentar a distância binária entre um terreno e o outro: estava fora agora estou
dentro 
insistir na mercadoria como via que salva
insistir na passagem que corta a montanha 
insistir na extensão infinita que atravessa os campos quando tudo na memória se resume ao regresso e que não podendo regressar deve o viajante cumprir o seu destino em linha recta: estava longe agora estou
perto

teoria dos nós

perdi anos a tentar entender o amor como arte matemática
li e reli a carta que são paulo escreveu aos coríntios / ouvi escondido as palavras meigas de duas árvores no recato / escutei no peito de quem amei o som do acordar numa manhã de orvalho
tudo isto me fez tornar observador matemático
à procura de cada equivalente na peregrinação solitária dos amantes
às vezes observava a maravilhosa transformação de uma rua caiada de preto em luz
o rosto de uma mulher perdendo as faces negras
e apesar de tudo a incompreensão continuava vigilante
vezes seguidas encontrei corações adormecidos a destecer a teia que os prendia
via o clarão mais luminoso a ensaiar no escuro o desamor
lia as crónicas de todos esses apagamentos
os barcos amarrados no fundeadouro partindo à primeira tempestade / as romagens iniciando-se ainda sem a história de um primeiro milagre / amores partindo sem guardar saudade
tudo pouco matemático
demasiadamente descuidado

vou continuar a perder anos sem esperança
todas as noites me deitarei em convulsão 
phi raízes quadradas e números de ouro sobre os olhos
adormecerei sem a compreensão de são paulo perdido nos caminhos caudalosos para à cidade
nenhuma lógica se fará quotidiana
nesta conta serei número ausente do meu próprio monólogo 
serão poucos os dias em que me perderei a esquecer
como é difícil unir os caminhos da terra para os rios 
o porquê de nenhum acordar me ter ensinado ainda
o segredo matemático de como entrelaçar dois fios

Keaton Henson - Josella

Arithmetica