monóptero

que do martírio se cansem os ricos
que sobreviva uma só árvore

que terminado o cerco possam os homens sair de manso
de volta à sua própria contagem

a memória enumerará as perdas
o esquecimento fará a sua própria história

o gesto será a única certeza
que se cansem os ricos de gesticular

que possa o homem por fim terminar
regressando ao início de uma linguagem
mais simples do que a nossa sobrevivência

a história do deus de toda a históriaque deixa ao ventoas mulheres incomuns

a história do deus de toda a história
que deixa ao vento
as mulheres incomuns

o meu coração está ao alto para cair
e no chão ninguém para o receber

o meu coração silenciado
tem uma altura precária
a natureza aguenta 
- o corpo não

o meu 
coração

Islands of Light - Goerde

sou neste campo o passado  
da boca do amor aspergida 
a saudade
do tempo em que colhias verdes
os dias
e a um palmo dos meus olhos me
dizias
que haveríamos de ser
em liberdade
 

o primeiro fruto 

pequenos motins na alma levaram o primeiro agricultor a escolher maças

no cultivo da vida, em consciência e olhos postos na rebelião, falta entender

a possibilidade infinita que há na escolha de ter o Homem como fruto 

de olhos na amplitude
propagar na terra
o sonho do lavrador sem margens 
 

escrevo um poema no vazio que deus me deixa
escrevo uma palavra que não se deixa semear
numa terra que se deixa esgotar
já fendida pelo tempo

uma palavra como oxigénio (como deus)
respiro-a já morta
e ainda assim presente

a primeira margem

ainda é tarde para a paz 
os corpos já se empilham como livros
por isso é tarde

já o sol se põe
e é tarde
para escrever poesia
em lugar de luz

a princípio vigiavam as fronteiras
- quando era cedo
deitavam-se quando morriam
escutavam apenas quando
a morte se aproximava

agora levam à boca uma bala
ao coração levam a última claridade
enquanto o escuro alumbra
nos olhos dos demais

ainda é tarde para a paz
é preciso lembrar o corpo
a manhã que renasce no deserto

enquanto se espera que se faça cedo
será ultrapassada na noite a primeira margem
escuro em lugar de luz
nesta procissão de homens intermitentes

um corvo

que entrou pela minha janela
numa dessas noites fraturadas

não quis saber das lágrimas  
do apelo de um cigarro
ou do livro que nessa noite lia
sobre a escrita do tempo e a sua
verdade

um corvo
que voou até se cansar
enquanto a luz estremecia
e eu na orla esperava

da vida não espero nada
desse corvo
espero que não volte mais

a pedra a tábua 

as mãos descalibradas vão segurando os sonhos e os avanços
a morte vai segurando o corpo preso à intuição 
em erros de calibragem os olhos vão perdendo visão do destino
o rosto envelhecendo na história suspensa dos avanços 
no passado enrugadas vão mirrando as mãos

estou ainda no lugar da permanência inquieta
onde mora a estrela diferente do fogo
a onda que morre pela garganta 

estou ainda longe 
à vista apenas o breviário da igreja: deus imolou-se no meio da ordem

e o meu corpo é uma casa enrugada
mas estou ainda longe 
de qualquer coisa que comece por ser fogo
uma tábua que arda no princípio e no fim de todos os incêndios

estou como uma pedra no charco 
que a criança lança como estrela que arde
e nunca me afundo
sem antes chegar à margem e voltar

mas os olhos insistem
há que teimar nos avanços por entre o desalinhamento das coisas
encontrar o ponto abstrato do destino 
voando sobre o charco 

na história ininterrupta dos avanços
poderei ser tábua de pregos
de cujas cinzas só sobrarão os pregos
mas porque avanço 
estarei sempre perto
longe da certeza de me crer árvore

Black Elk - II_II

Arithmetica