monóptero

escrevo um poema no vazio que deus me deixa
escrevo uma palavra que não se deixa semear
numa terra que se deixa esgotar
já fendida pelo tempo

uma palavra como oxigénio (como deus)
respiro-te já morta
e ainda assim presente

a primeira margem

ainda é tarde para a paz 
os corpos já se empilham como livros
por isso é tarde

já o sol se põe
e é tarde
para escrever poesia
em lugar de luz

a princípio vigiavam as fronteiras
- quando era cedo
deitavam-se quando morriam
escutavam apenas quando
a morte se aproximava

agora levam à boca uma bala
ao coração levam a última claridade
enquanto o escuro alumbra
nos olhos dos demais

ainda é tarde para a paz
é preciso lembrar o corpo
a manhã que renasce no deserto

enquanto se espera que se faça cedo
será ultrapassada na noite a primeira margem
escuro em lugar de luz
nesta procissão de homens intermitentes

um corvo

que entrou pela minha janela
numa dessas noites fraturadas

não quis saber das lágrimas  
do apelo de um cigarro
ou do livro que nessa noite lia
sobre a escrita do tempo e a sua
verdade

um corvo
que voou até se cansar
enquanto a luz estremecia
e eu na orla esperava

da vida não espero nada
desse corvo
espero que não volte mais

a pedra a tábua 

as mãos descalibradas vão segurando os sonhos e os avanços
a morte vai segurando o corpo preso à intuição 
em erros de calibragem os olhos vão perdendo visão do destino
o rosto envelhecendo na história suspensa dos avanços 
no passado enrugadas vão mirrando as mãos

estou ainda no lugar da permanência inquieta
onde mora a estrela diferente do fogo
a onda que morre pela garganta 

estou ainda longe 
à vista apenas o breviário da igreja: deus imolou-se no meio da ordem

e o meu corpo é uma casa enrugada
mas estou ainda longe 
de qualquer coisa que comece por ser fogo
uma tábua que arda no princípio e no fim de todos os incêndios

estou como uma pedra no charco 
que a criança lança como estrela que arde
e nunca me afundo
sem antes chegar à margem e voltar

mas os olhos insistem
há que teimar nos avanços por entre o desalinhamento das coisas
encontrar o ponto abstrato do destino 
voando sobre o charco 

na história ininterrupta dos avanços
poderei ser tábua de pregos
de cujas cinzas só sobrarão os pregos
mas porque avanço 
estarei sempre perto
longe da certeza de me crer árvore

Black Elk - II_II

enquanto procuro um vocábulo que me esclareça as manhãs, planalto ou destino
pergunto aos dias se é tempo ou declínio de luz que anoitece as minhas janelas

talvez porque a minha tristeza é a do arqueólogo sem homens 
creio saber que não é culpa do silêncio de luz solar
antes poderia ser do tempo, planalto ou destino
mas porque o meu ofício é saber do homem através da matéria
sei que sem ele tudo se extrai e tudo se apaga sem causas naturais

as manhãs renascem no planalto
as janelas anoitecem a cada nosso apagamento

nihil sine dio

o projecto de sociedade antes de cristo ter sido homem
foi esperar com deus num quarto escuro que a morte nos chamasse
foi esperar com deus até que a doença nos comesse 
foi esperar com deus até que o próprio nos matasse

o projecto de sociedade de hoje 
é morrer num quarto escuro
é ser comido pela doença
é esperar que a loucura se torne a morte em presença

feliz o homem que tece poesias
onde a noite tece inseguras distâncias.
dos dias imensos e vistas soberbas
arma refúgios onde outros constroem pontes
e espera que o tempo se silencie
esperando o dia
o dia
da última junção possível.
de todos os erros o único 
é não tentar.
dessa espessura se faz a alma.

Danny Norbury - From the Lookout

o teu coração será para sempre uma cidade transumante
por dentro tudo inerte
lá fora tudo parte

korouva misteriosa korouva que me lembro tanto na cruzada como no repouso sob a cal tuas celestes nuvens brancas sobre o peito korouva do sino budista que me liberta na meditação em escuta korouva da alvorada korouva de wiskey sobre a mesa kourova longa como a noite na noite longa kourova desperta
na sorte de te escutar
respiro à tona dos naufrágios

Arithmetica