monóptero

Piers Faccini - Wait By the Water

se pudéssemos olhar escutando
 
se pudéssemos olhar o reverso dos rostos quotidianos
o que seria de nós olhando
o que seria de nós olhando a nuvem e não apenas a sua
sombra no chão
o que seria de nós escutando
 
horizontais e tácitos calibramos os olhos entre espelhos
escolhemos o nome de uma rua e avançamos até outra
e assim sucessivos até ao encalço da idade
indiferentes à possibilidade da forma
ou ao reverso do que vemos
 
calibramos observações
cartografamos mapas
uns astrais outros terrestres
mas nenhuma rota que os ligue
que os inverta
esse tão antigo hábito que de tão antigo se perdeu
quando homens procuram no alto a exacta medida
do baixo
para construir das alturas o paraíso no chão
 
se pudéssemos olhar o reverso da idade
sem a triste melopeia que ouvimos cansados
ou se a melancolia fosse apenas nick drake cantando
fazendo luz sobre a vida velada
para além da causa e do efeito
do que foi antes e depois
 
o que seria de nós escutando
a estática do mundo latejando
sabiamente a iluminar caminhos
como se fosse função da música religar corpos
dos olhos para o seu reverso
abrindo-os ao imenso deslumbre do mundo

a maldição poética está de regresso a coimbra

a maldição poética está de regresso a coimbra

a erudição dos brâmanes 

dar-te-ia um lugar vazio 
a névoa sobrevoando um rio 
um deus arrependido
uma lua sobre a terra e em redor
a aurora sonâmbula
nossos olhos numa flor 
dar-te-ia meu amor
uma criação adormecida 
outro lugar outra história
sobre o leito 
um deus sentado 
no seu cósmico parapeito
uma mente voando
um poema crisálida
nascido do silêncio da manhã
mãe-madrugada
todo o tempo que não há
dar-te-ia meu amor
nossos olhos numa flor 
uma rocha sobrevoando um rio
pedra brilhando luminosa
sobre nosso imenso vazio

Quanto mais funda e lúgubre a descida 
Mais alta é a ladeira que não cansa

Florbela Espanca

das observações

I

encaminhei o cego ao encontro da frágua
e a mão do cego pousou na minha.
em murmurar de mãos me disse
toca somente o que te esquiva.

Matteo Uggeri - Walk Through The Fields

átomos em movimento
em torno de uma cabeça 
que não sabe de física
mas sabe como se estilhaça um quarto
como se inspecionam depois os restos
uma copo partido um copo colocado à mesa
em cenário doméstico onde tudo é primado do belo
e simultaneamente triste
porque se repete
e dura

um homem que se senta sozinho no quarto 
é apenas um homem em movimento
um homem que se senta num trapézio à noite
é uma paz de átomos
porque se acomoda no movimento rápido 
do próprio homem instável sobre o trapézio

a minha arte em movimento
em torno de uma cabeça
que não sabe de física
é tudo o que não me surge
uma turbulência introvertida que não verte sinal de luz
imensamente triste
porque só ela se move
e simultaneamente bela
porque só ela existe


o
corpo iluminado
que numa sociedade
afluente
tem por hábito ser
ausente 
 

corda ruída
no livro ao meio
lateja a mão doente
cansada do seu veio


uma premonição 
latente
sugerindo
que tudo o que é dito
nunca será escrito


e o leitor
que vai e vem
rompendo o veio
iluminado
dentro da abastada sociedade
absorvendo as orlas e as ilhas
e o livro sustendo o sopro
dentro da grande mãe
como feixe oriundo da origem
adornando nas mãos 
o poema amarelecido
como se cantasse que vindouro 
foi aquele poeta
mesmo nunca tendo sido.

regressei para me despir da tua ausência
do aparato da viagem 
que deporta todos os sentidos interiores
regressei
da estranheza de chegar a um país que está como 
morto na escala geológica 
para contemplar os teus olhos e tornar-me em tempo
mais depressa
não vi sequer um cedro 
ou uma barca destroçada que me levasse para lá de ti
nem uma hora cansada que me fizesse acampar
para lá da única visão que nos oferece a viagem 
depois que atravessamos os profundos vales
das nossas próprias barreiras geográficas
regressei
para perto de quem me sabe
e não acredita nos acasos certeiros da viagem
onde toda a sede é mitológica
e todas as memórias são obras artificiais 
sem pingo de arte ou fortuita biologia 
a única memória certa será sempre
a do regresso 
a pátria onde tudo é possível e todos os 
destinos são fáceis
é assim que lento e sem vestes retomo o poema diário
sabendo que partirei sempre
para regressar sempre e mais depressa

João Alegria Pécurto - IV (une autre mer)

                                                                                          ao Simão

poema de sobrevivência   

sem heróis haverão os nossos filhos de calcar a calçada perfeita
única sabedoria que do cosmos se preserva
observando a certeira mecânica quântica de um manco sentado na esteira 
problematizando sobre os governos 
e os nossos filhos passando à beira
como gramáticos de uma poesia nunca falada

convite às lágrimas

a quem descola o corpo pelos passeios meditabundo e descontente com a vida, não digo sequer os bons dias. não há razão para forçar a voz nesta era em que as palavras se dizem para não serem ditas. qualquer bom homem saberá que nos deslocamos pela cidade desejando os maus dias a quem passa por nós. hoje já nem os bons costumes nos salvam da aspereza da má cidadania. mas há sempre uma pergunta inocente cada vez que me cruzo com o senhor X, ou com a senhora Y: onde terá a senhora ou o senhor escondido o seu choro? interessava-me mais que nas procissões quotidianas se reencenasse o choro inicial, estridente e excruciante, a pingar de dor. viveríamos melhor, eventualmente mais surdos, mas sempre menos meditabundos, mais cientes da miséria a que devotamos o corpo. chorar é tudo menos conformismo. é apenas o espanto de vivermos mais um dia. por isso, senhores e senhoras, chorem diante da rua. já é tempo para que os escultores comissariados pelo poder se interessem pela vívida lágrima. pouparíamos assim os falsos bons e calados maus dias, substituíndo o deslocar do corpo nas calçadas pelo nadar num rio de lágrimas. as palavras de heráclito, a bondade, e tudo o que resta de humanismo e humanidade, fluiriam seguramente melhor. 

 

Arithmetica