monóptero

a revolução ao mar

há quem se constitua chamando a si as brechas
as fendas no miolo das mãos 
que tudo largam e libertam 
para que se diluindo sós se encontrem em tudo
há quem seja o miolo do mundo
que compreendo o interior do fruto
se refugia no canto da pele 
há quem se marque profundo  
como faca em árvore antiga
escrevendo: aqui me perdi 
e há quem roube barcos e avance
em direcção ao mar
sítio sem fundo nem princípio
oco do mundo
e linhas de costa para sonhar. 

Erik Satie - Sarabandes - No. 1

amnio

são marítimos os poemas que ardem na terra
e os pequenos vocábulos - mãe, raiz, amor
que se alojam nos pulmões
o pó da terra é cinza que só se lava no mar
e através do silêncio - contemos os segundos 
respiramos na água do primeiro ao último dia 
escrever
é vir à tona
ascendendo do escuro 
ao topo da raiz
mãe amor
tudo o que precisa
o corpo para a libertação 
do amniótico líquido
transformado
feito escuro, pó e lodo 
mas mãe, raiz, amor
tudo o que nos salva
tudo o que impele à ascensão.

Aaron Martin - Wires of Glass (Danny Norbury cover)

isto não é nada
a noite não é nada se me faltar a luz
a fronteira não é nada se do outro lado
não existir gente
o pecado não é nada
se não existirem falhas nos códigos gerais
o meu corpo não é nada
se nenhuma marca o trespassar
a vida não é nada
se em mim tudo ainda se prepara.

DEVIR - hoje (dia 15) no Bartô (Chapitô), às 22h.

devir é o projecto de dois amigos com tendência para a genialidade. sons inspirados em poesia | poesia inspirada em sons.

Porque 

um dia o mundo não mais 
será um enfermo genérico 

um dia há-de vir o dia 
da dissolução e do reinício 

porque há devir 

Saltland - I Thought it Was Us

                                                    Recomeçamos. Não nos rendemos.

                                                     Lars Gustavsson, A Morte de Um Apicultor


o amanhã

o que trará o amanhã, depois do fim? 
a vitória tardia? 
a decepção de mais um dia? 
pedimos ao deitar que o amanhã nos vença a sede
a imensa secura contemporânea
e o amanhã traz-nos mais um copo 
que serve apenas para se esperar um pouco mais
neste acumular de dias 
e trazer a espera 
da compreensão de todas as teorias

trará apenas o testemunho que tudo avança 
por isso deixou o homem de ser natural 
trocou o ir e voltar de todos os lugares simples
pela espera em lugares que não se movem
pelo que se espera do amanhã em anos bons
mercadores itinerantes amores itinerantes
mulheres que se revelam como símbolos 
casas onde se rezam como em santuários
e orlas mal percorridas 
e viagens mal guiadas nem sempre pela luz do farol

talvez seja apenas um pouco cedo para se esperar
estás caído sobre a terra entre flores e outras antiguidades
e ainda não percebeste que
o amanhã não te trará nada
tu sim
trarás o amanhã. 
 

abro os olhos no final do último verso 
vejo-te no poema 
tudo o resto se encontra à margem
assim deveríamos destapar cada livro cada amor
de olhos abertos
como se fosse o último.

Greg Haines - Better

Deves é mudar de alma, não de clima. […] Andares de um lado para o outro não te ajuda em nada, porque andas sempre na tua própria companhia.
 Séneca

contra-revolução

é como partir 
e não fugir 

é como uma revolução que bate à porta
e ninguém abre

é como acordar
e ainda dormir.

Orla Wren - Five Acre Ladder (Reprise) 

foste a caligrafia mais bela
inscrita no corpo mais àspero
a palavra mais leve sobre as costas
mais pesadas
e ainda que o tempo tenha sido tudo 
o que nunca te soube dizer 
fica certa que nenhuma letra se apagará 
no vil acaso do palimpsesto. 
           criaste em mim
           a tua imperecível pele. 

Colin Stetson - Among The Sef (Righteous II)

Arithmetica